Porque as taxas de juro influenciam tanto a economia?
Uma pequena alteração nas taxas de juro pode afectar empréstimos, poupanças, investimentos e até a inflação.
Sempre que o Banco Central altera as taxas de juro, a notícia ganha destaque nos jornais. Mas por que razão uma decisão que parece apenas burocrática mexe tanto com a vida de todos nós?Arte da CNN Brasil
Para compreender o seu impacto, precisamos de olhar para a taxa de juro de uma forma muito prática: ela é o preço do dinheiro.
Preço do dinheiro? O dinheiro tem preço? Como?
Quando você pede um empréstimo, a taxa de juro é o valor que paga ao banco pelo privilégio de usar aquele dinheiro hoje. Quando deixa o dinheiro guardado numa conta poupança, a taxa de juro é a recompensa que o banco lhe dá por deixar o dinheiro lá parado.
O impacto prático da subida das taxas de juro
Quando a economia está a crescer muito depressa, as pessoas e as empresas tendem a gastar muito. Como a procura por produtos e serviços aumenta rapidamente, as lojas e as empresas começam a subir os preços. É assim que surge a inflação, que destrói o poder de compra dos salários.
Para travar este aumento de preços, o Banco Central aumenta a taxa de juro. O efeito na sociedade é direto:
- O crédito fica mais caro: pedir dinheiro para comprar uma casa, um carro ou para investir numa empresa passa a custar mais mensalmente. Sabendo disso, a tendência natural das pessoas e dos empresários é adiar os empréstimos e reduzir os gastos.
- A poupança fica mais atractiva: os bancos passam a pagar juros mais altos a quem guarda dinheiro. O cidadão comum olha para isto e pensa: "Em vez de gastar este dinheiro agora, prefiro deixá-lo no banco a render".
Como as pessoas compram menos e guardam mais, as empresas enfrentam uma quebra nas vendas. Sem clientes dispostos a pagar caro, as empresas são obrigadas a congelar ou a baixar os preços para conseguirem vender. A inflação, portanto, abranda.
O impacto prático da descida das taxas de juro
O cenário inverte-se quando o país atravessa uma crise ou uma recessão. Se as pessoas estão com medo do futuro, elas fecham as carteiras, as empresas não vendem e começam a despedir trabalhadores.
Para reanimar o país, o Banco Central faz o oposto: desce as taxas de juro.
- O crédito fica mais barato: as prestações dos empréstimos baixam de preço. Aquela empresa que precisava de financiamento para comprar novos equipamentos ou contractar pessoal decide avançar, porque o custo do empréstimo agora cabe no orçamento.
- Poupar deixa de compensar: o banco passa a pagar quase nada pelas poupanças. Quem tem dinheiro guardado percebe que ele não está a render nada parado, preferindo retirá-lo para consumir ou para investir em algo mais lucrativo.
Com o dinheiro a circular mais facilmente, o consumo dispara, as empresas voltam a facturar e a economia cresce. O único risco é que, se o dinheiro ficar barato demais durante muito tempo, o consumo excessivo fará os preços disparar outra vez, reiniciando o ciclo da inflação.
Como se pode ver, as taxas de juro não são apenas números num ecrã de televisão. Elas alteram directamente a forma como cada um de nós gere o seu próprio salário, define o orçamento familiar e planeia o futuro. São a ferramenta mais poderosa para equilibrar o crescimento de um país e proteger o valor do nosso dinheiro.
Na próxima semana, mudaremos o foco para outra engrenagem que mexe com o bolso de todos os cidadãos. Vamos analisar o papel do Estado na economia, partindo de uma dúvida que surge quase sempre que olhamos para o nosso recibo de vencimento: afinal, por que razão pagamos impostos?
Leitura recomendada
- N. Gregory Mankiw, Macroeconomia
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