Laissez-faire, Laissez-passer: O Mundo Vai Por Si Mesmo?
Para todos que estão inseridos no universo da Economia, a expressão "Laissez-faire, laissez-passer" não é difícil de compreender, mas aos que estão a ingressar agora, ela pode parecer um conceito abstrato ou até misterioso. Mas a verdade é que esta máxima resume a alma do liberalismo económico.
A Origem Real: O Pedido de um Mercador
Muitos acreditam que Adam Smith foi o precursor desta ideia, mas a expressão nasceu muito antes de 1776. A história remonta ao final do século XVII, num encontro entre o influente ministro das finanças de Luís XIV, Jean-Baptiste Colbert, e um grupo de mercadores franceses.
Diz a tradição que Colbert, querendo ajudar a economia, perguntou o que o governo poderia fazer pelo comércio. O mercador Thomas Le Gendre (ou Legendre) respondeu de forma curta e devastadora: "Laissez-nous faire" (Deixai-nos fazer).
O que isso significava? Simplesmente que, para o comércio prosperar, o Estado não precisava de intervir ou criar regras complexas; bastava sair da frente e deixar os agentes trabalharem.
E você, o que diria se o governo lhe perguntasse como pode ajudar o seu negócio hoje? "Deixai-nos fazer" seria a sua resposta? Comente abaixo!
O Conceito: Produzir e Circular sem Barreiras
A expressão completa, tal como a conhecemos hoje, "Laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même", foi popularizada no século XVIII por pensadores como o Marquês d'Argenson e, principalmente, Vincent de Gournay.
Cada parte desta frase tem um significado prático muito claro:
- Laissez-faire (Deixai fazer): refere-se à liberdade de produção. Significa que as pessoas devem poder fabricar produtos sem o peso de regulamentações excessivas, burocracia ou privilégios de monopólio concedidos pelo Estado.
- Laissez-passer (Deixai passar): refere-se à liberdade de circulação. É a defesa do livre comércio, sem barreiras alfandegárias internas ou impostos que impeçam as mercadorias de fluir entre regiões e países.
- Le monde va de lui-même (O mundo vai por si mesmo): é a crença de que o mercado possui uma ordem natural. Se deixado livre, ele ajusta-se através dos preços e da concorrência para beneficiar tanto o vendedor quanto o comprador.
De Turgot a Adam Smith: A Ciência por trás do Slogan
Embora a frase tenha vindo de mercadores, ela foi transformada em teoria científica por homens como Anne Robert Jacques Turgot e os Fisiocratas. Turgot, um dos economistas mais brilhantes da história, defendia que a liberdade de comprar e vender era o único meio de garantir o melhor preço para o consumidor e o incentivo certo para o produtor.
Mais tarde, Adam Smith consolidou estas ideias com o famoso conceito da "mão invisível". Smith explicou que, quando um indivíduo busca apenas o seu próprio lucro, ele é "conduzido por uma mão invisível para promover um fim que não fazia parte da sua intenção": o bem-estar de toda a sociedade.
Sabia que esta teoria defende que a cegueira do governante é necessária? Smith argumentava que nenhum soberano teria sabedoria suficiente para vigiar a totalidade da economia sem se enganar constantemente.
Exemplos Modernos: O Laissez-faire no Século XXI
Apesar de ter séculos de idade, o espírito do laissez-faire está presente em muitos aspectos da nossa vida actual:
- Globalização: quando vê produtos de todo o mundo na sua prateleira, está a ver o "laissez-passer" em acção. A queda de barreiras alfandegárias permite que o comércio flua sem as travas que os fisiocratas tanto criticavam...
- Desregulação e Start-ups: ambientes onde existe menos burocracia para inovar e criar novas tecnologias são exemplos modernos de "laissez-faire". Turgot já dizia que o governo tentar evitar fraudes com excesso de regras era como querer colocar "almofadas para todas as crianças que pudessem cair", sacrificando o progresso da indústria.
- Privatizações: quando o Estado se retira da produção de bens e serviços para deixar que as empresas privadas compitam entre si, está a aplicar este princípio fundamental.
O Equilíbrio Necessário
O laissez-faire não prega a anarquia, mas sim um governo que respeite as leis naturais da economia. Para os seus defensores, o mercado é um lugar de veridição, onde a verdade dos preços e das necessidades se revela sem precisar de um "soberano administrador" para ditar o que fazer.

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